Luz e Ordem: 157 anos iluminando a história de Porto Alegre
Imagine embarcar em uma carruagem e voltar à Porto Alegre de 24 de setembro de 1869. Não havia automóveis, tampouco eletricidade. As ruas eram estreitas, a iluminação pública precária e o transporte dependia da força animal. A Capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul tinha cerca de 30 mil habitantes e ainda sentia os reflexos da Guerra do Paraguai.
O Teatro São Pedro, inaugurado em 1857, era orgulho da cidade e ponto de encontro de sua vida cultural. O Mercado Público que conhecemos estava prestes a ser inaugurado, em 4 de outubro daquele mesmo ano de 1869. A Santa Casa de Misericórdia era o grande hospital da Capital. Porto Alegre ainda cabia, em boa parte, no que hoje chamamos Centro Histórico.
Foi nessa cidade movida por cavalos, lampiões e ideias que quinze maçons decidiram fundar a Loja Maçônica Luz e Ordem. Nascia uma instituição que atravessaria 157 anos sem jamais “abater colunas”, expressão maçônica para o encerramento definitivo de uma Loja.
O Brasil ainda era Império e escravocrata. O Catolicismo constituía a religião oficial, e política e religião exerciam enorme influência sobre a vida social. Poucos anos depois, surgiria a chamada Questão Religiosa, período de forte tensão entre setores da Igreja Católica, a Maçonaria e o próprio Estado Imperial.
Nesse ambiente, a Luz e Ordem cedo transformou seus princípios em ações. Em 1871, nas comemorações da Lei do Ventre Livre, uma menina negra de nove anos recebeu, dentro de seu Templo, sua Carta de Liberdade; outro menino, de sete anos, também foi libertado por iniciativa de um de seus membros. Em 1873, nova alforria ocorreu durante uma cerimônia da Loja.
A causa abolicionista continuaria. Na década de 1880, em histórica sessão realizada no templo então utilizado pela Luz e Ordem, mais de vinte escravizados foram libertados. Estavam presentes, entre outras personalidades, o jornalista Carlos von Koseritz e José Júlio de Albuquerque Barros, Barão de Sobral, então Presidente da Província, cargo equivalente ao de governador nos dias atuais.
A fraternidade também se materializou em assistência social. Em 14 de julho de 1889, seus obreiros fundaram a Sociedade de Beneficência Luz e Ordem. Quatro anos depois, em 1893, foi no Templo da Loja, na Rua Jerônimo Coelho, que se fundou o Grande Oriente do Rio Grande do Sul, juntamente com outras oficinas maçônicas.
E quando a doença bateu às portas da cidade, novamente aquelas portas se abriram. Durante a gripe espanhola, o Templo da Luz e Ordem foi transformado em espaço de atendimento, disponibilizando 70 leitos aos enfermos. Mais de um século depois, durante a grande enchente que atingiu o Rio Grande do Sul, sua sede no Menino Deus tornou-se ponto de recebimento e distribuição de doações vindas inclusive de maçons de outros Estados.
Em 1928, a singularidade de sua trajetória ganhou outro símbolo: existia uma Luz e Ordem em cada uma das três grandes vertentes maçônicas regulares presentes no Estado – GOB, GORGS e GLMERGS. Uma demonstração histórica de que a fraternidade pode construir pontes onde estruturas administrativas estabelecem fronteiras.
Mas o que é, afinal, a Maçonaria que a Luz e Ordem representa há 157 anos?
Não é religião nem pretende substituir qualquer fé. É uma instituição iniciática que utiliza símbolos e alegorias para estimular o aperfeiçoamento moral e intelectual do ser humano, tendo Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre seus valores fundamentais. Busca formar homens comprometidos com o autoconhecimento, a ética, a solidariedade e o serviço à sociedade.
A Luz e Ordem tornou-se uma referência da Maçonaria no Rio Grande do Sul porque sua história não permaneceu fechada entre as paredes de seus templos. Ela caminhou pelas ruas de Porto Alegre, acompanhou suas dores, suas transformações e suas esperanças.
A carruagem de 1869 ficou no passado. Vieram a eletricidade, os automóveis, os arranha-céus e a cidade de milhões de movimentos. Mas algumas luzes não dependem de fios para permanecer acesas.
Há 157 anos, a Luz e Ordem mantém a sua.
Fonte: Jornal O Sul